7.5.09
Tropeçar, tropegar. Ofego. Res-fo-le-gar. É que não se pode desligar a tomada estalando os dedos. Simplesmente não se pode. Esse sou eu. Não este. Talvez aquele. Sempre distante. Ou será iminente? Importa apenas dizer-me em pas de deux. O instante preciso em que o bailarino, em plié, contrai os músculos do braço e tensiona as mãos contra a cintura delicada da bailarina. O momento em que ela, percebendo, se prepara para o salto. A precisa e imperceptível pausa que prepara para o grande sauté. Ocorre que o bailarino, quem controla, sustenta e no entanto não salta, sou eu. A cintura delicada, o deixar-se levar são também meus. Flutuo e me anteparo. Seria a imagem simploriamente bela, não fosse incoerente. Exceto pelo deixar-se levar e deter. Flutuar? Élever? Dessous! Sob. Sob mim mesmo? L'abîme. Mas não existe este termo na dança: me jogo mesmo, sem a menor delicadeza. Foi de tanto pensar naquele rosto. Aquele de cuja fisionomia na realidade não me lembro. Tenho pensado mais na cintura. Apertei, sim. Quase estrangulei, até. Esgana-me principalmente a lembrança da bunda. Do momento em que ela se abaixou para pegar os óculos, acidentalmente caídos no chão, e a camisola subiu: a dobrinha sempre me deixou fissurado. Deve depender da firmeza das coxas. E certamente sustém o empinado da bunda. Talvez eu sentisse de fato algo por ela. Não. Pela bunda, sem dúvida. Mas por ela, quero dizer. Ou de outra forma não lhe teria esquecido o rosto. Ou foi precisamente porque não senti, apenas depositei nele as expectativas ancestrais, que me esqueci. Ocorre com certa freqüência. E contudo é sempre num plié imperceptível que alguma prega se revela. Talvez eu precise deixar de me sentir atraído pela ressaca. Me jogo sem a menor delicadeza. E sempre o que fica são alguns frangalhos de mim. Penso sempre em minha amiga. Sofisticada, mas nunca me atraiu. Talvez porque se esconda sob um rosto vulgar. Parou de assistir a comédias românticas por acreditar estar se tornando uma Bovary pós-moderna. Histérica, depressiva. Matou a sofisticação e ficou com o rosto vulgar. Parou de olhar para as estrelas e finge que não está na sarjeta. Culpa daqueles incensos malditos, que traz à minha casa quando estou em frangalhos. E precisando de aulas de ioga, benzinho.
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