16.2.09

eu estava querendo me compensar de mim mesma

Sete horas da manhã de uma segunda-feira, eu ia andando pela rua Teodoro Sampaio e olhava distraída edifícios, nesga de céu, pessoas, sem pensar em nada. Distraída? Não, eu estava apaixonada e me sentia a mãe do mundo. Eu me sentia livre, a mãe de Deus.

Eu sentia carinho, um carinho desinteressado e clariceano por aquela rua tão descuidada e gelada, mas que era minha. Por aquelas pessoas que, aquecidas em suas jaquetas de lã xadrez, tomavam café no boteco da esquina enquanto esperavam por seus ônibus. Eu me sentia irmã das mulheres de cabelos molhados que se encolhiam de frio a cada rajada. Eu me comovia com as palavras de protesto pichadas nas paredes. E queria conversar com cada um daqueles candidatos que se amontoavam em uma fila na frente dos recursos humanos de um supermercado.

E foi quando se aproximou de mim um imenso mendigo. Imenso porque sua roupa se misturava ao lixo e ao papelão que carregava – fazendo-lhe parecer enorme, alto, gordo, e seu cabelo de espiga permanentemente eriçado. Ele fedia. De lá de longe. Igual a um mendigo que se sentara ao meu lado uma vez: sem coragem de me levantar, eu fiquei suportando o seu cheiro por quinze minutos. E o fedor ficou impregnado em mim. Por dois dias, eu senti.

Ele se aproximou de mim e me pediu um cigarro. Eu não deixaria de dar. Com todas as necessidades por que passava aquele homem – evidentes em seu fedor -, como poderia tolhê-lo ainda de um cigarro? Como poderia ser eu, mãe da Terra, a responsável por mais essa falta?

O cigarro que eu estava fumando já estava quase no fim. Eu não poderia dar justamente esse – é o que estava aceso e faria tudo aquilo terminar mais rapidamente. Mas eu não poderia dar meio cigarro. Aquele homem merecia um cigarro inteiro.

Eu dei um cigarro inteiro.

Ele me pediu o isqueiro.

Como posso emprestar meu isqueiro para um homem desses? Como permitir que ele toque algo que eu toco o tempo inteiro? Como aceitar que ele coloque sua mão fedida em um objeto que posso, distraidamente, colocar em minha boca?

Eu estendi a minha mão, segurando o isqueiro, para acender o cigarro inteiro dele.

E foi quando veio mais uma rajada. Aquela mesma pela qual eu estava apaixonada, que fazia as mulheres de banho tomado se encolherem. E que agora impedia o fogo de se acender.

E foi quando ele colocou a mão – suja, fedida, encardida – sobre a minha.

Eu entrei em choque; ele se foi, com um cigarro inteiro e aceso.

Quando eu subi no ônibus, não sabia o que fazer. Eu queria coçar meu olho, mas minha mão estava suja. Eu queria passar a mão no cabelo, mas minha mão estava fedida. Eu queria dormir, mas aquele mendigo imenso vinha me apavorar com seu cheiro perturbador. A cada vez que ele aparecia, eu vacilava: devo dar um cigarro a este homem? Devo. Mas ele vai me sujar.

No meu sono, eu compreendi: eu havia pisado em um enorme rato morto.

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