9.2.09

Asas de morcego, cabelo de serpente

Olívia, em tom de benevolência dissimulada, tentava explicar mais uma vez para Otávio, o querido – não interessa o que acontece lá fora. Mas ele era muito branco para compreender. Teve que vir o tom professoral:

- Sabe quando você está caminhando no gelo e um pontinho bege chama sua atenção? Você começa a escavar. E encontra um cadáver. Não é intuitivo, porque está ali, você vê. Mas exige um choque na sua percepção: algo bastante violento, que revele todo um novo mundo. Um corpo podre – ou quase, porque foi preservado pelo gelo.

Ele nunca entendeu nada de semiótica. Às vezes precisava de ajuda até para rir das tirinhas do jornal – apesar de seu doutorado em processos de dissimilação na língua inglesa.

Ela entrou no jogo e tentou um tom de mais candura:

- Já viu aquele passatempo de criança? Elas pintam um quadro com giz de cera e depois passam tinta preta por cima. A arte consiste em ir riscando a cobertura, para o desenho se formar com o colorido que vai se revelando. A sensação de tirar a primeira lasca é incomparável.

Otávio esboçou um olhar de compreensão. Diante daquele sorriso ingênuo, contudo, Olívia se deu conta de que a primeira metáfora correspondia melhor ao decoro do momento. Trocou morte por corte e tentou mais uma vez:

- 1994, Rede Globo, Rubens Ricupero e seu “não tenho escrúpulos”.

- Credo, Otávio! Vai ficar me olhando com essa cara de morto?

- É que estou pensando: ele não sabia que estava sendo observado.

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