10.2.09

Ao contrário do que eu sempre pensei, existe alguma parcela de razão na loucura da menina que não podia ouvir falar em pizza de rúcula com tomate seco: ela abria o maior berreiro e começava a vomitar, porque se lembrava do namorado que a deixara por outra pessoa. É um exagero, sim. E cruelmente cômico. Mas ouvir alguém dizer que é este o sabor preferido pode doer mais que a lembrança da troca.

Guardadas as devidas proporções neuróticas, é uma situação idêntica à comparação entre as dores que eu sinto ao me lembrar daquela cama de hospital em que minha avó ficou antes de morrer e ao me deparar com uma coruja de cerâmica em feiras de artesanato. Naturalmente, pensar na UTI é terrível – e eu choro sempre que sinto cheiro de éter. Mas saber que não existe mais a possibilidade de comprar corujas de presente para ela é algo esmagador.

Essa mesma transferência de dimensões, que certamente todos conhecem, acontece em momentos – outros, bem diferentes – que seriam pouco solenes. Quando eu e minha tia nos sentamos para acessar os sites que minha avó havia anotado em um caderninho vermelho (ela desconhecia a ferramenta “favoritos” do navegador), demos início, não a uma bisbilhotagem mesquinha, mas a uma espécie de cerimônia: como se pudéssemos, naquelas páginas bastante prosaicas da internet (a maioria, sites de compras), recuperar algo da vovó que não fosse apenas a saudade.

Foi frustrante navegar naqueles sites. Não tiramos nada de lá, a não ser duas confirmações: a primeira, vovó não dominava as ferramentas de computador, embora fosse dos remetentes mais freqüentes na minha caixa da entrada; a outra, ela adorava comprar: sapatos, jeans, bolsas, bijuterias.

Nós duas paramos, então, meio atônitas, encarando aquele caderninho: cadê aquilo que você ia nos revelar? Só depois de um tempo fui me lembrar de uma outra cena, ocorrida há pelo menos dois anos. Meu pai havia encontrado um papel com algum rabisco da vovó. Ela ainda estava ótima: lúcida, animada, sem preocupações gritantes. Entretanto, ele olhou para o pedaço de folha e ameaçou chorar:

- Olha a letrinha da vovó (que era mesmo linda): toda tremida. Ela está ficando velhinha, filha.

Antes que eu cedesse à vontade de arrancar o caderninho da minha tia e pegá-lo para mim, me lembrei do que havia sentido segundos antes. Ele também não me traria nada. Assim como não vão trazer a sandália vermelha que eu comprei para ela depois que ela se apaixonou por uma minha, igual, mas branca, ou o sapato maravilhoso que ela comprou na loja a que fomos juntas. Tudo isso está comigo. Os sites foram armazenados no meu histórico. Mas a vovó não está mais.

Um comentário:

Vinicius Hijano disse...

Primeiro: O Bacon não vai substituir a rúcula com tomate seco. Não, não vai. Simplesmente porque bacon é vida. E a vida não vem pra substituir nada, ela simplesmente acontece, naturalmente. E também a rúcula com tomate seco não tem a mesma graça do bacon. Rúcula com tomate seco é muito certinho, muito verde. Vida verde não é vida, é clichê de vida. A vida é gordurosa, com várias camadas. Mas essa vida de verdade tem que ter esse gosto indescritível com uma pitada de coisa errada. Coisa certa é rúcula ridícula. E garanto que, no final da vida, você vai sentir falta dos bacons não comidos.

Segundo: Não conheci a Dona vovó. Mas já sei o suficiente pra comentar um pouco. Como diria nosso amigo(meu e dela): "And your memory, you know it will remain for it cannot beerased
Other loves may come along, they can't live up to you"

E quanto a você, you´ll never walk alone.

Awop-bop-a-loo-mop alop bam boom, D. Lucy.