Passou boa parte da manhã na cama – entre o sono e a vigília, como quer a Maga, ou entre a memória e o esquecimento, observaria o Mestre. Eu diria largada. Ou derrubada, o que é quase o mesmo, pelo Porto da noite anterior e por pesadelos. Sonhou que colhia papoulas nas colinas gregas. Ao abrir os olhos, pensou ter visto a mão de um homem, mas era o travesseiro. Ou um palhaço. Luvas brancas.
Um ano e oito meses que o narrador havia posto um fim escabroso à sua ficção menos crível. O hipotético um ano do episódio de maior devaneio em sua história. Cinco meses que ela havia posto um fim desajustado a esse capítulo denso, embora breve, de sua história. Algumas semanas do fim definitivo que finalmente impusera, contra a vontade do narrador, à primeira ficção, utópica e esburacada. E, little did she know, a algumas horas de dois turning points do folhetim mais recente: duas inflexões incontigentes, duas dobras opostas. Que se anulariam. Mas talvez não para sempre. E que, se não houvesse, não teriam acabado com a aura inebriante e equivocada das semanas destinadas ao trio maravilha.
Num breve intervalo de esquecimento, era Dom Quixote, rasgando a tela do cinema, ovacionado pelas crianças, e perdendo para sempre Dulcinéia. Sentiu-se então um pouco Shirley, considerando tudo aquilo pura baboseira. Em seguida, a mão doce de Bovary lhe fez um breve cafuné, restituindo-lhe aos sonhos. Os sonhos. E sonhou.
Por ter sonhado, na manhã seguinte se sentia mais naufragada no porto. Como de fato estava. Virou Dulcinéia: acorrentou Dom Quixote e lhe deu um golpe com a espada desembainhada de sua ilharga. Se seu fígado estava exposto, o dele também ficaria.
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