Não, isto não começou direito. Ocorre que as últimas notícias das meninas davam conta de uma romântica viagem a Paris (Bovary) e de planos aventureiros pela América Latina (Shirley). E eis que elas surgem, aqui, se digladiando novamente. Mas não disseram por quê.
Sem notar que as decepções podem apenas servir para restituir a nós a importância do acaso, Bovary tombou após uma breve e intensa decepção. Sim, ela estava na cidade em que mais desejava viver, mas soube apenas ver penumbra e negrumes.
Shirley, tocada pelo discurso de um amigo que dizia não se importar com a vida do espírito quando encontrava a carne à sua frente, lembrou-se das aulas que vinha dando sobre continuidade e descontinuidade e, num momento epifânico, entendeu – sentiu – o significado da pletora de Bataille.
Bovary, quando procurava os comprimidos em sua mala, esbarrou em um livro que fora responsável, aos 16 anos, pelo fortalecimento de sua imaginação. Shirley saíra para comprar cigarros e, na vitrine de um sebo, deparou com o mesmo livro – cuja leitura, por censura ao folhetim, não era capaz de admitir.
“A ponte para o sempre”
A romântica compreendeu que a grandiloqüência de Paris nunca poderia salvá-la da necessidade de se sentir em casa – algo que só viria, de fato, se retornasse à província. Shirley percebeu que estava, sim, em busca de algum sentido – ainda que ele se desse apenas diante de um conjunto bastante abrangente de homens.
Ganharam sentido, então, os sonhos da noite anterior: as mil faces que se ofereciam para compor a feição daquele único e especial homem – um verdadeiro cortejo; as personagens se oferecendo, com seu gesto mais peculiar, para se encaixar naquele território nebuloso, sem desenho específico, onde caberiam todos os movimentos, sensações e sonhos do mundo – e os inúmeros rostos tão diferentes, mas ao mesmo tempo compostos por traços familiares e comuns – fazendo vã qualquer tentativa de compreender por que uns são mais especiais que os outros, ou de entender quais tipos de força são capazes de exercer maior atração.
Quando obteve o sentido exato de sua busca, Shirley reconheceu que não havia escapado ao sonho de Bovary. Apenas procurava concretizá-lo na vivência com um número mais extenso de pessoas. E Bovary sentiu-se aliviada ao interpretar por que, então, não poderia se lembrar da feição exata daquele último homem. Nele ela havia projetado e, de certa forma, encontrado, os gestos perfeitos que Shirley nunca deixaria de colecionar.
Percebeu-se, então, que aqui mesmo no Brasil elas haveriam de se conciliar.
Um comentário:
Cara, você me mata. Juro. Não pára mais de escrever, tá?
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