7.5.09
Tropeçar, tropegar. Ofego. Res-fo-le-gar. É que não se pode desligar a tomada estalando os dedos. Simplesmente não se pode. Esse sou eu. Não este. Talvez aquele. Sempre distante. Ou será iminente? Importa apenas dizer-me em pas de deux. O instante preciso em que o bailarino, em plié, contrai os músculos do braço e tensiona as mãos contra a cintura delicada da bailarina. O momento em que ela, percebendo, se prepara para o salto. A precisa e imperceptível pausa que prepara para o grande sauté. Ocorre que o bailarino, quem controla, sustenta e no entanto não salta, sou eu. A cintura delicada, o deixar-se levar são também meus. Flutuo e me anteparo. Seria a imagem simploriamente bela, não fosse incoerente. Exceto pelo deixar-se levar e deter. Flutuar? Élever? Dessous! Sob. Sob mim mesmo? L'abîme. Mas não existe este termo na dança: me jogo mesmo, sem a menor delicadeza. Foi de tanto pensar naquele rosto. Aquele de cuja fisionomia na realidade não me lembro. Tenho pensado mais na cintura. Apertei, sim. Quase estrangulei, até. Esgana-me principalmente a lembrança da bunda. Do momento em que ela se abaixou para pegar os óculos, acidentalmente caídos no chão, e a camisola subiu: a dobrinha sempre me deixou fissurado. Deve depender da firmeza das coxas. E certamente sustém o empinado da bunda. Talvez eu sentisse de fato algo por ela. Não. Pela bunda, sem dúvida. Mas por ela, quero dizer. Ou de outra forma não lhe teria esquecido o rosto. Ou foi precisamente porque não senti, apenas depositei nele as expectativas ancestrais, que me esqueci. Ocorre com certa freqüência. E contudo é sempre num plié imperceptível que alguma prega se revela. Talvez eu precise deixar de me sentir atraído pela ressaca. Me jogo sem a menor delicadeza. E sempre o que fica são alguns frangalhos de mim. Penso sempre em minha amiga. Sofisticada, mas nunca me atraiu. Talvez porque se esconda sob um rosto vulgar. Parou de assistir a comédias românticas por acreditar estar se tornando uma Bovary pós-moderna. Histérica, depressiva. Matou a sofisticação e ficou com o rosto vulgar. Parou de olhar para as estrelas e finge que não está na sarjeta. Culpa daqueles incensos malditos, que traz à minha casa quando estou em frangalhos. E precisando de aulas de ioga, benzinho.
30.4.09
nº2 da série procurando a maneira mais vulgar de dizer as verdades mais sublimes e incontestáveis:
As pessoas mais capazes de bancar o erlo com destreza são também e invariavelmente as que mantêm as suas caudas no nível mais baixo.
As pessoas mais capazes de bancar o erlo com destreza são também e invariavelmente as que mantêm as suas caudas no nível mais baixo.
22.4.09
playlist
tudo o que foi vivido não preparou
as certezas do caminho...
the water got so cold.
posso até sair de bar em bar
eu não sou ninguém de ir
mais uma vontade que ficou pra trás
... sua intuição estava tão equivocada, copacabana
as certezas do caminho...
the water got so cold.
posso até sair de bar em bar
eu não sou ninguém de ir
mais uma vontade que ficou pra trás
... sua intuição estava tão equivocada, copacabana
30.3.09
Às vezes a gente só precisa olhar e pensar: e daí? Eu quero, eu vou. O resto não importa mais. Como assim? É se abrir, se expor – porque você reconheceu que é a única forma de salvar aquilo tudo. Expor o coração, você diz? Que brega. De onde você tirou isso? Não sei. O problema é quando o coração já esteve exposto a vida inteira. Você está piorando. Não, vou melhorar: levou um monte de cuspida, de catarrada. Affe. Enfim, aquilo ali ficou exposto a vida inteira, aí é claro que só vai ter agressão. Sempre? Sempre. Pode reparar: pode ser um olhar desconfiado. Agressivo? É. Receber esse olharzinho torto, de alguém que se sente o tempo todo ameaçado. Mas isso não é agressivo. Pode ser, sim. É como disse a poeta: há muitos criminosos no mundo porque eles não confiam em si mesmos, em seu próprio potencial. Logo, quem poderá confiar neles? Então tá bom. É assim? É, é assim. Então vai. No fundo, tudo se resume a isso. É? Sabe aquele doutor em processos de dissimilação que eu namorei? Dissimulação? Engraçadinha. Dissimilação. Em língua inglesa. Affe. Sei. Eu vivia dizendo Vem, Osmo, me leva logo pra dançar. Ele ficava dizendo que não, Isso me lembra um negócio da infância que me irrita um pouco. Disse que sempre foi desajeitado, não ouvia bem, mal conseguia seguir a música, era muito duro, confundia os pés – até já tinha batido o carro por trocar o freio e o acelerador, essas coisas. Mas ele foi. Foi? E tinha até decidido aprender a dançar. Mas falou assim Vai lá, dança, eu quero ver, eu fico louco de ver você dançar, é uma maravilha. Mas tem umas músicas que não dá pra dançar sozinha. Tudo bem, eu continuei. De repente, o Osmo está dançando com alguém. Uma moça bem gorda, bem feia – tão gorda que não tinha pescoço, coitada. Tá brincando? “Mas é limpinha”, ele falou depois. Enfim, ele me levou para dançar, mas cada um tinha que dançar a sua própria dança. É melhor assim, ele disse. A gente não se mistura, não corre o risco de um pisar no pé do outro, eu não vou errar o lugar de colocar a mão na sua cintura. Affe. Mas isso que eu estou tentando de dizer. Ele estava com o coração exposto. Você é um pouco benevolente, não? Não. Como sabe? Quando entramos no carro, ele colocou a mão na minha cintura. De vez em quando ele me rodopiava, sem música. Sem medo. Depois de tudo isso ele ainda namorou uma finlandesa. Eles saíam muito para dançar. Mas uma noite, depois do baile, ele matou ela. Ninguém sabe bem o que houve, e depois, quando ele se matou, deixou um bilhete Cabô, mãezinha. Devia ser aquela coisa da infância. E ainda assim você acha que tem que abrir o coração?
nº1 da série procurando a maneira mais vulgar de dizer as verdades mais sublimes e incontestáveis:
"Algumas pessoas são como tapetes. Precisam ser sacudidas" (provérbio árabe, há quem diga)
"Algumas pessoas são como tapetes. Precisam ser sacudidas" (provérbio árabe, há quem diga)
16.2.09
eu estava querendo me compensar de mim mesma
Sete horas da manhã de uma segunda-feira, eu ia andando pela rua Teodoro Sampaio e olhava distraída edifícios, nesga de céu, pessoas, sem pensar em nada. Distraída? Não, eu estava apaixonada e me sentia a mãe do mundo. Eu me sentia livre, a mãe de Deus.
Eu sentia carinho, um carinho desinteressado e clariceano por aquela rua tão descuidada e gelada, mas que era minha. Por aquelas pessoas que, aquecidas em suas jaquetas de lã xadrez, tomavam café no boteco da esquina enquanto esperavam por seus ônibus. Eu me sentia irmã das mulheres de cabelos molhados que se encolhiam de frio a cada rajada. Eu me comovia com as palavras de protesto pichadas nas paredes. E queria conversar com cada um daqueles candidatos que se amontoavam em uma fila na frente dos recursos humanos de um supermercado.
E foi quando se aproximou de mim um imenso mendigo. Imenso porque sua roupa se misturava ao lixo e ao papelão que carregava – fazendo-lhe parecer enorme, alto, gordo, e seu cabelo de espiga permanentemente eriçado. Ele fedia. De lá de longe. Igual a um mendigo que se sentara ao meu lado uma vez: sem coragem de me levantar, eu fiquei suportando o seu cheiro por quinze minutos. E o fedor ficou impregnado em mim. Por dois dias, eu senti.
Ele se aproximou de mim e me pediu um cigarro. Eu não deixaria de dar. Com todas as necessidades por que passava aquele homem – evidentes em seu fedor -, como poderia tolhê-lo ainda de um cigarro? Como poderia ser eu, mãe da Terra, a responsável por mais essa falta?
O cigarro que eu estava fumando já estava quase no fim. Eu não poderia dar justamente esse – é o que estava aceso e faria tudo aquilo terminar mais rapidamente. Mas eu não poderia dar meio cigarro. Aquele homem merecia um cigarro inteiro.
Eu dei um cigarro inteiro.
Ele me pediu o isqueiro.
Como posso emprestar meu isqueiro para um homem desses? Como permitir que ele toque algo que eu toco o tempo inteiro? Como aceitar que ele coloque sua mão fedida em um objeto que posso, distraidamente, colocar em minha boca?
Eu estendi a minha mão, segurando o isqueiro, para acender o cigarro inteiro dele.
E foi quando veio mais uma rajada. Aquela mesma pela qual eu estava apaixonada, que fazia as mulheres de banho tomado se encolherem. E que agora impedia o fogo de se acender.
E foi quando ele colocou a mão – suja, fedida, encardida – sobre a minha.
Eu entrei em choque; ele se foi, com um cigarro inteiro e aceso.
Quando eu subi no ônibus, não sabia o que fazer. Eu queria coçar meu olho, mas minha mão estava suja. Eu queria passar a mão no cabelo, mas minha mão estava fedida. Eu queria dormir, mas aquele mendigo imenso vinha me apavorar com seu cheiro perturbador. A cada vez que ele aparecia, eu vacilava: devo dar um cigarro a este homem? Devo. Mas ele vai me sujar.
No meu sono, eu compreendi: eu havia pisado em um enorme rato morto.
Eu sentia carinho, um carinho desinteressado e clariceano por aquela rua tão descuidada e gelada, mas que era minha. Por aquelas pessoas que, aquecidas em suas jaquetas de lã xadrez, tomavam café no boteco da esquina enquanto esperavam por seus ônibus. Eu me sentia irmã das mulheres de cabelos molhados que se encolhiam de frio a cada rajada. Eu me comovia com as palavras de protesto pichadas nas paredes. E queria conversar com cada um daqueles candidatos que se amontoavam em uma fila na frente dos recursos humanos de um supermercado.
E foi quando se aproximou de mim um imenso mendigo. Imenso porque sua roupa se misturava ao lixo e ao papelão que carregava – fazendo-lhe parecer enorme, alto, gordo, e seu cabelo de espiga permanentemente eriçado. Ele fedia. De lá de longe. Igual a um mendigo que se sentara ao meu lado uma vez: sem coragem de me levantar, eu fiquei suportando o seu cheiro por quinze minutos. E o fedor ficou impregnado em mim. Por dois dias, eu senti.
Ele se aproximou de mim e me pediu um cigarro. Eu não deixaria de dar. Com todas as necessidades por que passava aquele homem – evidentes em seu fedor -, como poderia tolhê-lo ainda de um cigarro? Como poderia ser eu, mãe da Terra, a responsável por mais essa falta?
O cigarro que eu estava fumando já estava quase no fim. Eu não poderia dar justamente esse – é o que estava aceso e faria tudo aquilo terminar mais rapidamente. Mas eu não poderia dar meio cigarro. Aquele homem merecia um cigarro inteiro.
Eu dei um cigarro inteiro.
Ele me pediu o isqueiro.
Como posso emprestar meu isqueiro para um homem desses? Como permitir que ele toque algo que eu toco o tempo inteiro? Como aceitar que ele coloque sua mão fedida em um objeto que posso, distraidamente, colocar em minha boca?
Eu estendi a minha mão, segurando o isqueiro, para acender o cigarro inteiro dele.
E foi quando veio mais uma rajada. Aquela mesma pela qual eu estava apaixonada, que fazia as mulheres de banho tomado se encolherem. E que agora impedia o fogo de se acender.
E foi quando ele colocou a mão – suja, fedida, encardida – sobre a minha.
Eu entrei em choque; ele se foi, com um cigarro inteiro e aceso.
Quando eu subi no ônibus, não sabia o que fazer. Eu queria coçar meu olho, mas minha mão estava suja. Eu queria passar a mão no cabelo, mas minha mão estava fedida. Eu queria dormir, mas aquele mendigo imenso vinha me apavorar com seu cheiro perturbador. A cada vez que ele aparecia, eu vacilava: devo dar um cigarro a este homem? Devo. Mas ele vai me sujar.
No meu sono, eu compreendi: eu havia pisado em um enorme rato morto.
10.2.09
Ao contrário do que eu sempre pensei, existe alguma parcela de razão na loucura da menina que não podia ouvir falar em pizza de rúcula com tomate seco: ela abria o maior berreiro e começava a vomitar, porque se lembrava do namorado que a deixara por outra pessoa. É um exagero, sim. E cruelmente cômico. Mas ouvir alguém dizer que é este o sabor preferido pode doer mais que a lembrança da troca.
Guardadas as devidas proporções neuróticas, é uma situação idêntica à comparação entre as dores que eu sinto ao me lembrar daquela cama de hospital em que minha avó ficou antes de morrer e ao me deparar com uma coruja de cerâmica em feiras de artesanato. Naturalmente, pensar na UTI é terrível – e eu choro sempre que sinto cheiro de éter. Mas saber que não existe mais a possibilidade de comprar corujas de presente para ela é algo esmagador.
Essa mesma transferência de dimensões, que certamente todos conhecem, acontece em momentos – outros, bem diferentes – que seriam pouco solenes. Quando eu e minha tia nos sentamos para acessar os sites que minha avó havia anotado em um caderninho vermelho (ela desconhecia a ferramenta “favoritos” do navegador), demos início, não a uma bisbilhotagem mesquinha, mas a uma espécie de cerimônia: como se pudéssemos, naquelas páginas bastante prosaicas da internet (a maioria, sites de compras), recuperar algo da vovó que não fosse apenas a saudade.
Foi frustrante navegar naqueles sites. Não tiramos nada de lá, a não ser duas confirmações: a primeira, vovó não dominava as ferramentas de computador, embora fosse dos remetentes mais freqüentes na minha caixa da entrada; a outra, ela adorava comprar: sapatos, jeans, bolsas, bijuterias.
Nós duas paramos, então, meio atônitas, encarando aquele caderninho: cadê aquilo que você ia nos revelar? Só depois de um tempo fui me lembrar de uma outra cena, ocorrida há pelo menos dois anos. Meu pai havia encontrado um papel com algum rabisco da vovó. Ela ainda estava ótima: lúcida, animada, sem preocupações gritantes. Entretanto, ele olhou para o pedaço de folha e ameaçou chorar:
- Olha a letrinha da vovó (que era mesmo linda): toda tremida. Ela está ficando velhinha, filha.
Antes que eu cedesse à vontade de arrancar o caderninho da minha tia e pegá-lo para mim, me lembrei do que havia sentido segundos antes. Ele também não me traria nada. Assim como não vão trazer a sandália vermelha que eu comprei para ela depois que ela se apaixonou por uma minha, igual, mas branca, ou o sapato maravilhoso que ela comprou na loja a que fomos juntas. Tudo isso está comigo. Os sites foram armazenados no meu histórico. Mas a vovó não está mais.
Guardadas as devidas proporções neuróticas, é uma situação idêntica à comparação entre as dores que eu sinto ao me lembrar daquela cama de hospital em que minha avó ficou antes de morrer e ao me deparar com uma coruja de cerâmica em feiras de artesanato. Naturalmente, pensar na UTI é terrível – e eu choro sempre que sinto cheiro de éter. Mas saber que não existe mais a possibilidade de comprar corujas de presente para ela é algo esmagador.
Essa mesma transferência de dimensões, que certamente todos conhecem, acontece em momentos – outros, bem diferentes – que seriam pouco solenes. Quando eu e minha tia nos sentamos para acessar os sites que minha avó havia anotado em um caderninho vermelho (ela desconhecia a ferramenta “favoritos” do navegador), demos início, não a uma bisbilhotagem mesquinha, mas a uma espécie de cerimônia: como se pudéssemos, naquelas páginas bastante prosaicas da internet (a maioria, sites de compras), recuperar algo da vovó que não fosse apenas a saudade.
Foi frustrante navegar naqueles sites. Não tiramos nada de lá, a não ser duas confirmações: a primeira, vovó não dominava as ferramentas de computador, embora fosse dos remetentes mais freqüentes na minha caixa da entrada; a outra, ela adorava comprar: sapatos, jeans, bolsas, bijuterias.
Nós duas paramos, então, meio atônitas, encarando aquele caderninho: cadê aquilo que você ia nos revelar? Só depois de um tempo fui me lembrar de uma outra cena, ocorrida há pelo menos dois anos. Meu pai havia encontrado um papel com algum rabisco da vovó. Ela ainda estava ótima: lúcida, animada, sem preocupações gritantes. Entretanto, ele olhou para o pedaço de folha e ameaçou chorar:
- Olha a letrinha da vovó (que era mesmo linda): toda tremida. Ela está ficando velhinha, filha.
Antes que eu cedesse à vontade de arrancar o caderninho da minha tia e pegá-lo para mim, me lembrei do que havia sentido segundos antes. Ele também não me traria nada. Assim como não vão trazer a sandália vermelha que eu comprei para ela depois que ela se apaixonou por uma minha, igual, mas branca, ou o sapato maravilhoso que ela comprou na loja a que fomos juntas. Tudo isso está comigo. Os sites foram armazenados no meu histórico. Mas a vovó não está mais.
9.2.09
Asas de morcego, cabelo de serpente
Olívia, em tom de benevolência dissimulada, tentava explicar mais uma vez para Otávio, o querido – não interessa o que acontece lá fora. Mas ele era muito branco para compreender. Teve que vir o tom professoral:
- Sabe quando você está caminhando no gelo e um pontinho bege chama sua atenção? Você começa a escavar. E encontra um cadáver. Não é intuitivo, porque está ali, você vê. Mas exige um choque na sua percepção: algo bastante violento, que revele todo um novo mundo. Um corpo podre – ou quase, porque foi preservado pelo gelo.
Ele nunca entendeu nada de semiótica. Às vezes precisava de ajuda até para rir das tirinhas do jornal – apesar de seu doutorado em processos de dissimilação na língua inglesa.
Ela entrou no jogo e tentou um tom de mais candura:
- Já viu aquele passatempo de criança? Elas pintam um quadro com giz de cera e depois passam tinta preta por cima. A arte consiste em ir riscando a cobertura, para o desenho se formar com o colorido que vai se revelando. A sensação de tirar a primeira lasca é incomparável.
Otávio esboçou um olhar de compreensão. Diante daquele sorriso ingênuo, contudo, Olívia se deu conta de que a primeira metáfora correspondia melhor ao decoro do momento. Trocou morte por corte e tentou mais uma vez:
- 1994, Rede Globo, Rubens Ricupero e seu “não tenho escrúpulos”.
- Credo, Otávio! Vai ficar me olhando com essa cara de morto?
- É que estou pensando: ele não sabia que estava sendo observado.
- Sabe quando você está caminhando no gelo e um pontinho bege chama sua atenção? Você começa a escavar. E encontra um cadáver. Não é intuitivo, porque está ali, você vê. Mas exige um choque na sua percepção: algo bastante violento, que revele todo um novo mundo. Um corpo podre – ou quase, porque foi preservado pelo gelo.
Ele nunca entendeu nada de semiótica. Às vezes precisava de ajuda até para rir das tirinhas do jornal – apesar de seu doutorado em processos de dissimilação na língua inglesa.
Ela entrou no jogo e tentou um tom de mais candura:
- Já viu aquele passatempo de criança? Elas pintam um quadro com giz de cera e depois passam tinta preta por cima. A arte consiste em ir riscando a cobertura, para o desenho se formar com o colorido que vai se revelando. A sensação de tirar a primeira lasca é incomparável.
Otávio esboçou um olhar de compreensão. Diante daquele sorriso ingênuo, contudo, Olívia se deu conta de que a primeira metáfora correspondia melhor ao decoro do momento. Trocou morte por corte e tentou mais uma vez:
- 1994, Rede Globo, Rubens Ricupero e seu “não tenho escrúpulos”.
- Credo, Otávio! Vai ficar me olhando com essa cara de morto?
- É que estou pensando: ele não sabia que estava sendo observado.
30.7.08
- Sonhei com você.
- (Desconfiado, achando estranho) Jura? O quê, exatamente?
- Que aquele dia, ao invés de deixá-lo ir embora uma segunda vez, eu dizia: “Vamos lá naquele hall, repetir o ato delicioso e perigosíssimo”.
(Silêncio. Desconforto. Uma grande gargalhada.)
- Mentira. Não foi isso não.
- (Desconforto maior e imprevisto) Ah.. mas sonhou algo mesmo?
- Sim. Que você me achava o máximo, e queria me gratificar, embora sabendo ser impossível. Então me dava um conjunto de produtos para os dentes. Entre eles, o que mais gostei, um clareador.
- Bizarro. O que quer dizer, hein?
- Que esse sorriso amarelo que você vem provocando em mim deveria, na verdade, ser branco, brilhante e sincero.
- Você anda distorcendo tudo o que lê. Que abobrinha.
- Nada. Você é que anda brega demais, e isso deve ser só pra me provocar.
- Brega?
- Sim. Ridículas aquelas mensagens melosas para a outra. Só podem ser falsas e querer atingir a mim, no limite.
- Você é ridícula.
- Você é quem está sendo. Um escroto, mestre do brega. Que me quer de volta no seu hospício particular.
- E você é uma piranha, vagabunda.
- Quer dizer então que você aceita a minha proposta?
- (Desconfiado, achando estranho) Jura? O quê, exatamente?
- Que aquele dia, ao invés de deixá-lo ir embora uma segunda vez, eu dizia: “Vamos lá naquele hall, repetir o ato delicioso e perigosíssimo”.
(Silêncio. Desconforto. Uma grande gargalhada.)
- Mentira. Não foi isso não.
- (Desconforto maior e imprevisto) Ah.. mas sonhou algo mesmo?
- Sim. Que você me achava o máximo, e queria me gratificar, embora sabendo ser impossível. Então me dava um conjunto de produtos para os dentes. Entre eles, o que mais gostei, um clareador.
- Bizarro. O que quer dizer, hein?
- Que esse sorriso amarelo que você vem provocando em mim deveria, na verdade, ser branco, brilhante e sincero.
- Você anda distorcendo tudo o que lê. Que abobrinha.
- Nada. Você é que anda brega demais, e isso deve ser só pra me provocar.
- Brega?
- Sim. Ridículas aquelas mensagens melosas para a outra. Só podem ser falsas e querer atingir a mim, no limite.
- Você é ridícula.
- Você é quem está sendo. Um escroto, mestre do brega. Que me quer de volta no seu hospício particular.
- E você é uma piranha, vagabunda.
- Quer dizer então que você aceita a minha proposta?
14.7.08
Imagem de Tristano morre que sintetiza tudo o que penso sobre aqueles que pensam a literatura:
"Há gatos, crianças, dois ingleses da minha idade que falam de Virginia Woolf e um farol, lá longe, de que não se aperceberam"
Trecho de Tristano morre que acalma quem costuma, no amor, tomar o badalo pelo sino:
"felizmente, tudo se transforma em cantiga quando se chega ao ponto de vista de quem apenas pode olhar para o teto"
Excerto de Tristano morre que consola quem descobriu que o sentido de tudo são as garatujas:
"De você, recolhi tudo, migalhas, fragmentos, poeiras, conjecturas, entoações que se demoram em outras vozes, alguns grãos de areia, uma concha, o seu passado imaginado por mim, o nosso suposto futuro, aquilo que eu quisera que me desse, aquilo que você havia prometido, os meus sonhos infantis, o encantamento que em menina senti por meu pai, lengalengas rimadas da minha meninice, umas papoula no acostamento de uma estrada poeirenta. Também isso eu guardei no bolso, sabe?, a corola de uma papoula como aquelas papoulas que em maio ia apanhar nas colinas com o meu Volkswagen, enquanto você ficava em casa grávido dos seus projetos, debruçado sobre as complicadas receitas que a sua mãe lhe deixara num livrinho preto escrito em francês, e eu colhia para você uma papoulas que você não conseguia entender. Não sei se você depositou a sua semente dentro de mim, ou se fui eu a depositá-la em você. Cada um de nós é apenas si próprio, sem transmissão de carne futura, e eu sobretudo sem ninguém que recolha a minha angústia"
As palavras de Oscar Wilde que dão sentido a tudo isto:
“Todos nós estamos na sarjeta, /
mas alguns de nós olham para as estrelas”
Tristano morre: uma vida - Antonio Tabucchi. Editora Rocco.
"Há gatos, crianças, dois ingleses da minha idade que falam de Virginia Woolf e um farol, lá longe, de que não se aperceberam"
Trecho de Tristano morre que acalma quem costuma, no amor, tomar o badalo pelo sino:
"felizmente, tudo se transforma em cantiga quando se chega ao ponto de vista de quem apenas pode olhar para o teto"
Excerto de Tristano morre que consola quem descobriu que o sentido de tudo são as garatujas:
"De você, recolhi tudo, migalhas, fragmentos, poeiras, conjecturas, entoações que se demoram em outras vozes, alguns grãos de areia, uma concha, o seu passado imaginado por mim, o nosso suposto futuro, aquilo que eu quisera que me desse, aquilo que você havia prometido, os meus sonhos infantis, o encantamento que em menina senti por meu pai, lengalengas rimadas da minha meninice, umas papoula no acostamento de uma estrada poeirenta. Também isso eu guardei no bolso, sabe?, a corola de uma papoula como aquelas papoulas que em maio ia apanhar nas colinas com o meu Volkswagen, enquanto você ficava em casa grávido dos seus projetos, debruçado sobre as complicadas receitas que a sua mãe lhe deixara num livrinho preto escrito em francês, e eu colhia para você uma papoulas que você não conseguia entender. Não sei se você depositou a sua semente dentro de mim, ou se fui eu a depositá-la em você. Cada um de nós é apenas si próprio, sem transmissão de carne futura, e eu sobretudo sem ninguém que recolha a minha angústia"
As palavras de Oscar Wilde que dão sentido a tudo isto:
“Todos nós estamos na sarjeta, /
mas alguns de nós olham para as estrelas”
Tristano morre: uma vida - Antonio Tabucchi. Editora Rocco.
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